



Uma década depois, Sílvio Viana é nome da avenida da orla marítima de Maceió e João Lyra está na frente nas pesquisas para ser governador de Alagoas. Na semana passada, ISTOÉ entrevistou um dos acusados pelo crime, o ex-soldado da Polícia Militar Garibalde Santos de Amorim. Ele cumpriu pena, em regime fechado, de oito anos pela morte de Viana – e fez uma acusação direta: “Quem mandou matar foi o deputado João Lyra.” Garibalde jura ser inocente. Atribui o crime a outros pistoleiros. Ele dispara mais uma afirmação bombástica: ao lado de outras três pessoas, recebeu dinheiro para, no curso do processo, inocentar Lyra em depoimento na Polícia Federal. A parte de Garibalde foi de R$ 48 mil, pagos em três pacotes de R$ 16 mil. O dinheiro passeou pelas contas do irmão do ex-soldado, Alberto Santos de Amorim, e da mãe, a dona-de-casa Genilda Santos de Amorim. Com uma parcela do dinheiro, Garibalde forrou os dentes com ouro. Com outra parte pagou cirurgia de ponte de safena no coração da mãe. |
Num gesto até aqui guardado em segredo, apurado por ISTOÉ, o juiz da Vara de Execução Penal de Alagoas, Marcelo Tadeu Lemos de Oliveira, colheu um depoimento do ex-soldado Garibalde. Seu teor serviu de base a um dossiê sobre o crime que foi entregue no dia 7 de junho, em Brasília, à presidente do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie. O centro da peça jurídica é outra vez a acusação de que João Lyra foi o autor intelectual do crime. Para entregar a representação, o juiz se fez acompanhar de familiares do fiscal morto. Ellen Gracie se emocionou, chegando às lágrimas. “Não mataram meu irmão, mataram o Estado de Alagoas”, disse Silviane, irmã de Sílvio, durante o encontro. Na quarta-feira 28, a família do fiscal voltou a Brasília. Desta feita para ir ao procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza. De novo para pedir justiça. O ofício que encabeça o dossiê ao procurador-geral, a exemplo do documento entregue a Ellen Gracie, foi preparado pelo juiz Marcelo Tadeu. Ele é um juiz jovem, de 43 anos, e com tatuagem de uma cara de leão no braço esquerdo. É conhecido em Alagoas por tentar modernizar o Judiciário local. No presídio de segurança máxima Baldomero Cavalcante, muitos detentos o chamam de “pai”. Existe motivo. Marcelo Tadeu passa grande parte do seu período de trabalho dentro do presídio, conversando com os presos, resolvendo problemas. Lá não existe rebelião. A taxa de reincidência criminal caiu com a chegada do juiz. Ele lamenta a injustiça do sistema prisional da região. Em Alagoas, tem gente condenada por crime hediondo por carregar 40 gramas de maconha. No ofício que entregou à ministra Ellen, o juiz discorre sobre os três processos criminais instaurados para investigar a morte de Sílvio Viana. Nenhum dos três processos aponta a motivação do crime e muito menos aponta autores intelectuais. “Eles são resultado de uma escancarada aberração jurídica”, escreve o juiz. Ao STF e à Procuradoria da República, o juiz é enfático em denunciar João Lyra como um dos autores intelectuais do assassinato de Sílvio Viana.
“O assassinato de Sílvio Viana é um caso emblemático da impunidade e da fragilidade das instituições do Estado”, disse a ISTOÉ o juiz Marcelo Tadeu. “O Garibalde é a última testemunha viva.” Garibalde afirma que os ex-soldados conhecidos como Fininho e Cigano, hoje presos por outros crimes no quartel da PM de Alagoas, foram os verdadeiros matadores do fiscal Sílvio Viana. Os dois outros pistoleiros responsáveis, os policiais Ferreirinha e Valter, foram assassinados. “Queima de arquivo”, crava Garibalde. Ele dá o nome de outro delegado que manda matar em Alagoas. “Quem praticava os crimes sob orientação do Cavalcante era a equipe do delegado Valdir de Carvalho.” Garibalde quer ir ele próprio a Brasília para contar também o que sabe sobre tráfico de armas em Alagoas, envolvendo as autoridades locais. Mas e o deputado João Lyra, tem mais crimes? “Tem”, diz Garibalde. Ele discorre sobre o crime do sargento da PM Marcos Antônio de Almeida Silva, em 1991. Antes de ser assassinado, o sargento confidenciou seu romance com Solange Pereira de Lyra, mulher de João Lyra. Este crime foi noticiado por ISTOÉ Senhor em 1991. A reportagem foi ao Tribunal de Justiça de Alagoas para encontrar os vestígios do crime. No sistema eletrônico do tribunal não consta o nome do sargento assassinado. |
Ouvindo “Only One Road", Celine Dion